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September 14, 2012

.pouco de lucidez

“Por mim ia á Igreja todos os domingo […] mas acho que não se pode conservar a lucidez e acreditar em Deus, e eu preciso de lucidez”

boris vian, irei cuspir-vos nos túmulos, relógio d'água


December 30, 2008

excertos literários [cardinal]004

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A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrivel precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável.

No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido.

Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância , uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Quantas vezes mais contemplarás uma lua cheia a erguer-se? Talvez vinte.

E, no entanto, tudo parece ilimitado.

O céu que nos protege, Paul Bowles, Assírio e Alvim, p. 239, 2004

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December 16, 2008

excertos literários [cardinal]003

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Não interessava que fosse de manhã ou tarde, sexta-feira ou domingo, era sempre o mesmo: a dor surda, sem parar um momento, torturante; a consciência desesperada da vida ainda presente mas a fugir-lhe; a única realidade: a morte iminente, terrivél, odiosa; e a mentira constante.

Que importância tinham os dias, as semanas, as horas?

A morte de Ivan Iliich, Lev Tolstói, Relógio D’Água Editores, p. 72, 2007

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December 10, 2008

excertos literários [cardinal]002

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A situação apresentava-se sob um ângulo muito diferente. [...] não se trata do ceco, mas da vida... e da morte. Sim, a vida agora a extinguir-se, a fugir-me, e não posso agarra-la. Sim. [...] estou nas últimas. [...] onde havia luz, agora há trevas. Ainda estou cá, mas vou para lá! Para lá onde?
[...]
Deixarei de existir, mas o que existirá então? Nada. Mas onde estarei quando não existir? Será mesmo a morte? Não, não quero.
[...]
Mas não pode ser que todos, e sempre, estejamos condenados a este medo terrível.

A morte de Ivan Iliich, Lev Tolstói, Relógio D’Água Editores, p. 54, 2007

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December 4, 2008

excertos literários [cardinal]001

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Ceiam e vão-se embora, e Ivan Illitch fica sozinho com a aconsciência de que a sua vida está envenenada e de que está a a envenenar a dos outros, e de que o veneno não perde força mas cada vez se infiltra mais em todo o seu ser.
[...]
E tinha de viver assim, à beira da morte, completamente sozinho, sem uma única alma que o compreendesse e tivesse pena dele.

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A morte de Ivan Iliich, Lev Tolstói, Relógio D’Água Editores, p. 50, 2007