December 16, 2008

quero o outono que nunca fiz

.in respondeo

terna. eu disse-te que eras terna. e nada poderá mudar isso. sei que sou um rapaz um tanto estroina. cinzento. muito. cinzento. num país e cidade onde o cinzento é feio, e onde todos se julgam de côr bonita, não o sendo. e onde mais ninguém é cinzento. muito. cinzento como eu.

o teu batonzinho. escarlate. causa de inveja. ali! olha, vês-te?
terna, como a menina que um dia há-de ser tua. sentadinha no teu colo a brincar com o escarlate de oz dos teus lábios, e pedir que a beijes, ou lhe dês um pouco dos teus lábios de mãe. de menina-senhora.

o escarlate, esse, sobre todas as formas, vermelho ou encarnaducho, que não te saia dos lábios, nem dentro de ti. eu, só peço para o ver um pouco mais de perto.
tu, continua a ser terna. e menina. muito. menina. tu. a pintar mundo.

excertos literários [cardinal]003

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Não interessava que fosse de manhã ou tarde, sexta-feira ou domingo, era sempre o mesmo: a dor surda, sem parar um momento, torturante; a consciência desesperada da vida ainda presente mas a fugir-lhe; a única realidade: a morte iminente, terrivél, odiosa; e a mentira constante.

Que importância tinham os dias, as semanas, as horas?

A morte de Ivan Iliich, Lev Tolstói, Relógio D’Água Editores, p. 72, 2007

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December 13, 2008

a insustentável tensão para te ter

o querer que ontem atormenta que tira o sono
a ausência de nós no amanhecer da esperança
[renovada

renovado desejo

a cada passo ou pulsar das estrelas
que prometi oferecer-te
reapareces fugidia

as sombras são malandras
não nos querem bem
querem-te a ti ti t i t i

renovado desejo

a esperança infantil contagiante
destrói as poucas capas que possuo
descobre o peito mostra-te o melhor de mim

não subsiste a razão apenas

um renovado desejo

e

a insustentável tensão para te ter

December 12, 2008

sans titre [cardinal]001

o el dourado não tem coito
as palavras que nos fogem os olhares cansados
os sexos lânguidos as mãos frias

sem i’s nem pontuação
desnecessária


o teu peito contra o meu na tentativa da fuga
para o altar da redenção


vem-te e vai-te embora
abandona quem já não respira
não me peças mais que tudo falta


aqui jaz o último e o primeiro
daqueles que recusaste e daqueles que tentaste

amar…


dançamos um pouco mais?